Ouviu um clique e continuou o caminho. Seriam muitos minutos pela frente até chegar aonde devia. Ninguém a esperaria no final do trajeto. As faces apressadas cobertas por gorros e guarda-chuvas invadiram, por um instante breve, a sua atenção. Desinteressada, olhou para cima: o dia mostrava uma intenção de azul. E o tempo de dentro passava muito mais lento que o tempo de fora.
Com um gesto irresistível e sem explicação (afinal quem botava a mão no gelado de forma tão decidida?), antes de desviar de uma poça, pegou o papel da água. Ainda dava para ler. Era a análise de alguma coisa. Observou os vestígios da imagem molhada que acompanhava aquele texto, e parecia… que tão estranho era aquilo! Parecia ali mesmo! Uma luz se canalizava sobre aquela figura humana. “Meu deus!”, deu um grito mudo. Ela conhecia aquela garrafinha de água. Estava em sua mão.
Cerrou os olhos, apertando-os por uns minutos, tentou inspirar fundo, sentiu o rosto molhado e, depois, um pouco de coragem: espiou na direção do céu, viu um par de olhos, que logo sumiu. Ufa. Mas vieram outros: mais e mais retinas e pupilas passando rápido por cima dela. Piscou, fitou o chão e voltou ao teste de realidade: agora todos os olhos-cadentes traziam com eles bocas que acompanham os movimentos de sobrancelhas. Tudo muito veloz e fugidio. Alguém de fato a via? Aquela leve luz sobre ela devia estar facilitando algum truque. E a coisa piorou: até dois minutos antes, era meio de dia. De repente: estrelas. De espécie diferente (e estrela tinha espécie?). A lua devia estar escondida em algum lugar.
Instintiva, voltou às palavras lidas no papel encharcado. O texto ainda estava lá e não deixava muita alternativa para que as coisas fossem daquele jeito:
“Vejo que esta foto foi feita com o uso da superfície reflexiva da água. Embora seja uma evocação vertiginosa e surreal do céu e da rua, o lado direito está inativo. O Ideal seria haver uma pessoa ali, eliminando o espaço vazio. Ou o céu deveria ocupar um pouco mais do quadro, para promover um equilíbrio composicional. Assinado: Sr. Avaliador do Concurso Internacional de Fotografia de Rua”. Não era fotógrafa, mas o que ele dizia estava na cara: coloque pessoas, preencha o quadro, bote mais movimento. Mate. Os. Vazios.
Aquele trecho do caminho, no entanto, não combinava com esse Ideal de julgador. Aquela rua que ele queria não era a que ela via. Talvez tenha sido, em outro momento, mas não naquele pedaço de rumo, não no dia em que do azul só restava a intenção. Não quando quase não havia outras cores.
O sonho tem suas próprias leis, nuances e estrelas, e o tempo de dentro tem sua própria velocidade em cada fração. Desobedecem o óbvio, o lógico e fogem do Ideal. Antes de desaparecer junto com a poça, compreendeu que eram eles os compositores: o sonho e o tempo de dentro imprimiram, no quadro, a honestidade de uma hora tão impermanente e imprevisível quanto o próximo destino da água. Não havia espaço para mais nada.
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